O sonâmbulo, a Xuxa e o martelo

O sonambulo, a xuxa e o martelo 2

Quem me conhece sabe que, antes de mais nada: sou sonâmbulo. Não daqueles que a gente vê nos desenhos, que andam com os braços esticados, contam seus segredos e morrem ao serem acordados, mas daqueles bem inofensivos (menos para minha mãe – e, consequentemente, para quem dorme comigo). Daqueles que fazem coisas bem comuns, como sentar na cama, falar sozinho (inclusive brigo constantemente com uma garota misteriosa, que um dia ainda vai pagar pelo que me fez)… ou coreografar uma música do Xuxa Só Para Baixinhos. Daqueles que já não é mais levado a sério quando acorda, deseja um bom dia e percebe que todos te olham estranhamente. “-Ok, eu devo ter dito alguma coisa enquanto dormia, mas não foi algo tão grave assim, não foi? Ou foi? Será que não podemos simplesmente ignorar essa situação e fingir que nada aconteceu?

Dito isso, eis minha história mais marcante envolvendo sonambulismo: acordei no meio da noite e sentei na cama para coreografar Guto Bate com Um Martelo, da Xuxa (sim, minha adolescência também foi surrupiada ao me obrigarem a assistir os DVDs da Xuxa, enquanto cuidava de meus primos mais novos e a mãe deles saía pra trabalhar). Tive que aprender todas as letras e coreografias da rainha deles para poder entretê-los, portanto, peço que não me julgue, você não sabe o que eu, a Demi e um DVD da Galinha Pintadinha passamos.

Mas voltando ao sonambulismo, enquanto eu coreografava, minha mãe (sempre ela) apareceu na porta do quarto espantada, sem acreditar no que via, e claro, aos risos. “Ok, ele deve estar com a cabeça cheia de tanto dar replay no DVD da Xuxa pra aqueles meninos, então vou dar um crédito“, deve ter pensado. Mas a coreografia seguiu, e ela ficou ainda mais assustada com aquela performance inesperada. Detalhe que ela era uma das poucas pessoas que conseguia falar comigo enquanto eu dormia, já que eu sempre a respondia sussurrando algo (principalmente para reclamar quando ela “atrapalhava” meu sono). Enfim, nesse dia, enquanto ela tentava dialogar comigo, eu movimentava ainda mais as mãos e os braços sobre os joelhos, e ainda por cima CANTAVA (segundo ela, é claro, porque eu não lembro de coisíssima de nada). Estava visivelmente em transe, batendo martelo no meio da noite (no bom sentido, é claro), aquele era o meu momento. O Gran Finale da música é tão real que eu realmente fiz jus ao Guto e fui dormir (quem já assistiu ao clipe e letra, sabe do que estou falando), e à minha mãe só restou a vergonha alheia e desgosto em ter que presenciar aquilo.

De manhã, foi quando eu acordei e agi naturalmente como sempre, estava lindíssima, distraída em meus pensamentos, quando sentei no sofá e percebi que minha mãe me olhava de lado, com aquela cara de reprovação. Passou tudo pela minha cabeça. Será que ela descobriu que fui eu que peguei o dinheiro da bolsinha dela? Será que acordei sonâmbulo no meio da noite e soltei pra ela que sou gay? Será que minhas irmãs cabuetaram algum podre meu? JESUS, MARIA, JOSÉ. Eu virei o rosto em câmera lenta  na mesma hora e enquanto eu fixava meu olhar no dela, ela sorriu e disse: -Não lembra não menino, o que você fez ontem a noite?

Pronto. Eu gelei. Meu maior medo havia se concretizado: acordei sonâmbulo e soltei pra minha mãe que era viado. Na hora eu nem conseguia segurar a colher direito, estava pronto para negar tudo e dizer que não passou de um pesadelo, quando ela completa: –Você estava dançando Xuxa (risos), aquela música do martelo (risos). Menino… tô preocupada com você, viu? Tá ficando cada vez pior… ficou dançando no meio da noite!

Eh… ah sim, a música da Xuxa, hehehe. Eu coreografei né? rsrsrs Meu deus do céu, que vontade de enterrar minha cabeça num buraco. Depois que minha mãe me contou tudo em detalhes, eu realmente me dei conta do que eu havia feito. Nem sabia dizer qual vergonha era pior. A do constrangimento enquanto meus familiares me olhavam enquanto ela contava, ou a de ter que voltar a cuidar dos meus primos novamente, sabendo que qualquer coreografia que eu aprendesse naquele momento, poderia ser usada contra mim na madrugada.

Pois é, só minha mãe, Xuxa, Guto e o martelo, sabem o que nós sonâmbulos passamos…

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